Para irem sabendo de mim...

02 julho 2008

"Evolution is not an option"*

Eu sei que eles andam por aí. Ia até prevenida que abundam na Florida. Mesmo assim o queixo caiu-me(nos) na mesa do almoço. O moço é biólogo de profissão. Tipo novo, simpático mas de poucas palavras. Já lhe tínhamos notado o particular silêncio quando adaptação e evolução vinham à baila. No último dia resolveu abrir o jogo: é criacionista! Uns segundos de silêncio para recuperar o fôlego, seguidos de sessão de perguntas e respostas. Acredita que o mundo tem seis mil anos (ou coisa que o valha), na arca de Noé e no dilúvio. Eu calada. Estupefacta. À medida que o discurso se foi articulando oscilei entre indignação, riso e tristeza. Provavelmente por esta ordem. Comportei-me, controlei-me. Guardei toda a minha energia e pensamento claro para, de uma só golfada, esclarecer: nós não acreditamos em evolução por selecção natural, nós aceitamos-la, porque é uma teoria cientificamente suportada (maneira airosa de lhe dizer que fizesse o que quisesse com a fé dele, mas que não a metesse na ciência).

No dia exacto do centésimo quinquagésimo aniversário da teoria da evolução por selecção natural, aqui fica o meu muito modesto contributo para a sua celebração.

*Sempre que passo pelo gabinete da Hopi sorrio ao ler-lhe a frase do postal colado na
porta

01 julho 2008

Lab vibe

Um dos vários emails que a Hopi nos faz chegar, quase diariamente, diz assim:

"Forget the 4th of July celebrations....
TODAY, July 1, is the 150th anniversary of the reading of the
Darwin-Wallace paper at the Linnean Society in London. The Theory of
Evolution by Natural Selection was born exactly 150 years ago.
Raise a glass this evening to the two bearded sages, and to the
theory that was announced on that day!"

É por esta e por outras que gosto tanto do meu novo lab. Boa gente e boa ciência mas, acima de tudo, este espírito que nos faz vibrar diariamente. Critério número um, confesso, para a escolha de alunos e posdocs: people that have that burning in the belly.

20 junho 2008

Estou tão mudada (3)

Volta e meia embarco numa Stella ou Corona. Uma faz-me a conta. Beberico-a pelo noite fora e sabe-me bem.

19 junho 2008

Estou tão mudada (2)


Foram 2 dias, SEMPRE a pedalar!

17 junho 2008

Quando me sair o euromilhões* crio uma fundação. Enquanto o dia não chega, venho aqui.

*nota mental: há que jogar para ter alguma probabilidade (mesmo que ínfima) de ganhar

O senhor que diz coisas acertadas e coisas bonitas

"Que imagem tem do seu país e dos seus compatriotas?
Tenho sido severo, algumas vezes. Mas houve uma altura em que disse que gostava daquilo que este país fez de mim - é um dos melhores elogios que se pode fazer. (…) O grande problema nacional é a mediocridade e a resignação à mediocridade.

Como é que gostava de ser recordado? O Nobel português?
Gostaria de ser recordado como o escritor que criou a personagem do cão das lágrimas [Ensaio sobre a Cegueira]. É um dos momentos mais belos que fiz até hoje enquanto escritor. Se no futuro puder ser recordado como "aquele tipo que fez aquela coisa do cão que bebeu as lágrimas da mulher", ficarei contente. Se alguém procurar naquilo que eu tenho escrito uma certa mensagem, atrevo-me pela primeira vez a dizer que essa mensagem está aí. A compaixão dessa mulher que tenta salvar o grupo em que está o seu marido é equivalente à compaixão daquele cão que se aproxima de um ser humano em desespero e que, não podendo fazer mais nada, lhe bebe as lágrimas."

José Saramago em entrevista ao Público (15 de Junho, 2008)

Estou tão mudada (1)


De quem são estes pés?

12 junho 2008

A minha amiga do peito não é muito dada a modernices, por isso atendeu-me do telefone lá de casa. Ouvi-lhe o estou inconfundível (nem a alergia lhe camufla a alegria) e, como sempre, a conversa encarrilou facilmente. Contei-lhe da vidinha de cá e ouvi-lhe da de lá. Estava a sentir-lhe a falta. Estou tão apaziguadinha.

10 junho 2008

As bananas da Madeira não chegam aqui

Hesito entre bananas gigantes, cheias de químicos, descoloradas e insípidas (mas sem embalagens desnecessárias) e bananas organic aconchegadas numa cama de esferovite com lençol de plástico aderente. Irrito-me, lembro-me da story of stuff, praguejo em português e não trago nenhumas.

Pigmentação estival

Agora que estudo pigmentação, divirto-me a olhar para os padrões da minha. A pedalada no Cabo não me levou o v do peito. Antes, ganhei duas riscas nas costas e umas mãos negras de tão bronzeadas.

04 junho 2008

Às oito da noite, a caminho de casa na bicicleta turquesa, o ar que me faz esvoaçar a saia e me seca o cabelo é quente. O verão começou por estas bandas e parece que veio para ficar. Tirando o escaldão em forma de v no meu peito, a vida corre-me bem.

03 junho 2008

Pus o laboratório em alvoroço. Ninguém sabe o que pensar, avançam-se as explicações mais mirabolantes... A coisa é mesmo estranha, parece que descobri uma nova lei de Mendel. A Hopi deita-se no chão e já se fala em God-mouse!

02 junho 2008

Revejo-me em pequenos pormenores de conversas esporádicas. Muitas vezes identifico-me e lembro-me que já estive ali. A vontade de viajar, o gozo dos fins-de-semana caseiros, os muitos planos, todos a dois. Às vezes apetece-me dizer-lhe que aproveite bem, outras vezes quase me sai um conselho boca fora, mas a maior parte das vezes gosto mesmo só de a ouvir.
Aproximo-me dos trinta, e ao mesmo tempo que me reconheço uma estranha sensação de pessoa vivida, identifico-me com a mocinha sonhadora de Lisbela e o prisioneiro "A graça não é saber o que acontece. É saber como acontece e quando acontece."

26 maio 2008

A mesa dos sonhos



Dreaming device e fotos por Sofia Ponte

15 maio 2008

Adaptação do Ensaio sobre a Cegueira de Saramago, por Fernando Meirelles com a Julianne Moore e o Gabriel Garcia Bernal?! A minha expectativa não pode ser mais alta. Parece que vai abrir o Festival de Cannes. Vasco Câmara descreve-o no Público como opressivamente luminoso. Assim que sair vai haver sessão luso-brasileira por cá com certeza.

13 maio 2008

Vida de bióloga

O trabalho de campo é sempre surpreendente. Um desafio constante à minha tenacidade e resistência, sempre com altos e baixos emocionais. A decepção de uma armadilha vazia é muitas vezes superada por uma gargalhada numa conversa com o colega igualmente desapontado e pronto para voltar para casa. Trovoada assustadora seguida de vistoria às armadilhas debaixo de uma chuva copiosa, sou tão miserável. Seguimos mais para o interior: novo acampamento, duche de água quente, parque muito bonito, cuscus para o jantar, conversa e 16 ratinhos à nossa espera, a minha vida de bióloga é um privilégio.
Importa ainda referir que o trabalho de campo já não é o que era: estou na Carolina do Sul, numa cidade perdida no meio do nada, numa bakery com internet a tomar um capuccino. Às seis da manhã enfiei os pés na lama e tratei de 6 ratinhos, às duas da tarde falei com a família e fiz uma aplicação financeira no site do meu banco.

05 maio 2008

Sou arrebatada, não restam dúvidas. A ideia surge, congemino e planeio, num ápice está a decisão tomada. Não há tempo para indecisões, dão-me nervoso miudinho. Gosto de lhe chamar entusiasmo, independência ou determinação, mas se calhar não é nada disso (calma aí contigo mas é). Doc ou post-doc, peixes ou ratos, não faz diferença. Ainda agora cheguei e já meti o pé na argola. Decididamente não posso lidar com alminhas de melindre fácil. Desta vez parece que acertei. Apenas um email de alerta, logo seguido de outro bem simpático. Está tudo bem.

02 maio 2008

Ainda não interiorizei a coisa. A minha amiga de sempre, aquela pequenina gozona de carinha redonda, adolescente rebelde e companheira de experências, é agora mãe. O ciclo da vida segue o seu caminho e eu aqui tão longe sem poder viver a coisa também...

01 maio 2008

A dentada da serpente

Para além de muitas outras coisas, ele deixou-me músicas proibidas. Hoje o shuffle trouxe-me esta. A serpente mordeu-me, mas não me estragou o dia.

Avientame
(da banda sonora de Amores Perros)

Abrazame y muerdeme
llevate contigo mis heridas
avientame y dejame
mientras yo contemplo tu partida
en espera de que vuelvas
y tal vez vuelvas por mi

Y ya te vas que me diras
diras que poco sabes tu decir
despidete ya no estaras
almenos ten conmigo esa bondad
te extrañare no mentire
me duele que no estes
y tu te vas

Amarrame y muerdeme
llevate contigo mis heridas
murmurame y ladrame
y grita hasta que ya no escuche nada
solo ve como me quedo aqui esperando que no estes
en espera de que vuelvas
y tal vez vuelvas por mi
en espera de que vuelvas
y tal vez vuelvas por mi

25 abril 2008

O riso

Tenho para mim que é o sentido de humor que dita as relações humanas. Afinidades e cumplicidades são talhadas pelo riso, ou melhor, pelo que o provoca. A intimidade constrói-se com o riso. Os meus amigos do peito riem-se muito, e eu rio-me muito com eles. Coisas tão insignificantes, tão mazinhas por vezes, tão inacreditavelmente engraçadas... É o historial de muitos risos que me faz querer chorar com eles.
Identifico o mesmo padrão no que respeita a namorados. Tudo o resto parece ter corrido mal, mas até ao fim, rimo-nos das mesmas coisas.
Aqui no sítio novo, ainda não tenho grandes amigos, é ainda muito cedo para tal. Aprecio-lhes para já o sentido de humor, que tem despoletado boas e recorrentes gargalhadas comuns.

21 abril 2008

Ando que me farto nesta cidade. Tenho uma dor no pé esquerdo e outra no joelho direito, mas em compensação a minha barriga diminui de dia para dia. As calças estão-me largas, o cinto precisa de mais um furo e, todas as manhãs, o espelho mostra-me um perfil lisinho. A este ritmo, daqui a uns tempos, a dita vai estar pronta para ser presenteada com um furo no umbigo.

19 abril 2008

Onze e meia, chego a casa. Música e vela acesa no meu quarto. Penso na semana: pcrs que funcionam mas depois desistem, o rodopio no laboratório, a lab meeting em que me senti parte da coisa, as marguaritas das post-docs, as pizas do jantar a acompanhar a conversa e o riso fácil do casal garcia. Os dias correm, eu absorvo tudo, não faço planos e sinto-me extraordinariamente calma.

16 abril 2008

Columbia St.

Não sei identificar o que tem a minha nova casa, mas gosto dela. O calor, o cheiro característico, as minhas mobílias acabadas de chegar, as marradinhas da Bell e da Gigi, a cumplicidade dos roommates. Percorro mentalmente o caminho até lá e apetece-me chegar.

14 abril 2008

Le mépris

Le Mépris ou Contempt na versão traduzida que fui ver numa sala que, presumo, vai passar a ser de frequência assídua. Sem dúvida um filme a rever ao longo da vida. Pela realização, pela Brigitte Bardot, pela fotografia, pelo texto, mas sobretudo porque, mais cedo ou mais tarde, e talvez de diferentes formas ao longo na vida, nos vamos rever nele. Se acaso o tivesse visto há uns tempos atrás, não acredito que tivesse gostado tanto.

12 abril 2008

Sábado

Tenho novamente bancada, arrumada claro, mas com ar de investigadora atarefada. Voltei às pipetas e aos tubos. Se dúvidas houvessem tirei as teimas: pipetar é como andar de bicicleta, não se lhe perde o jeito. Para arrumar já as saudades, o meu primeiro DNA de rato não se quis mostrar. Mais uma vez lembro-me da melhor lição que me ficou de um professor da FCUL: Persistência e resistência à decepção são qualidades fundamentais num investigador.
Agora troveja e eu vou para casa. Talvez logo haja mais uma sessão de riso internacional.

02 abril 2008

Pequenices

Gosto de coincidências, detalhes, pequenas ironias. Divirto-me com pequenas associações e procuro, por brincadeira, significados insignificantes. Escolho o dia das mentiras para a viagem.
Na primeira escala encontro no bolso do casaco um pequeno papel amarrotado. Leio o rabiscado:
iogurtes
requeijão
papel higiénico
abrilhantador máq. loiça
Localizo-o. Primeiro no espaço (requeijão= Portugal, abrilhantador= casa-que-já-foi-nossa), depois no tempo (há uma eternidade). Guardo-o de novo no bolso mas prometo deita-lo fora no primeiro caixote de lixo que encontrar.
Aterro no destino final e, ao contrário do previsto, sou recebida por uns amenos 16C.
Entretanto esqueço-me do papel. Vai para o lixo já em casa do Tiago.

28 março 2008

Cá se vai andando

Não quero ser exemplo para ninguém. Não quero esse peso, essa responsabilidade, simplesmente porque não o sou. Vou andando e fazendo o melhor que posso. Às vezes ando às apalpadelas. Identifico a facilidade em confundir determinação com sabedoria, mas não acho que seja disso que se trata. As coisas acontecem e eu reajo. Tenho alguns objectivos e penso no caminho que quero seguir, mas sinceramente não sei para onde vou. Há muito que me deixei de planos a longo prazo. Aprendi a lidar com a angústia e cada vez sofro menos por antecipação. A vida tem-me surpreendido tanto que não vale mesmo a pena. Para o melhor e para o pior cada ano é uma novidade. Acho que já o escrevi e volto a repetir: é a certeza da surpresa que me leva para a frente.

18 março 2008

Viva o imposto

A extracção da madeira é feita sob o controlo do Estado. O governo vietnamita impõe um imposto especial sobre todos os produtos exportados que contribui para a arborização e administração da floresta.
Ao comprar a nossa mobília está a contribuir directamente para o salvamento da floresta vietnamita.

Muito boa surpresa, em letras pequeninas. Depois de já ter montado a mesa...

12 março 2008

Sinto os músculos internos todos aos estalinhos. Desafio-os, controlo-os. É o domínio da mente sobre o corpo. Vou buscar o que quero, obrigo o que não interessa a ficar no lugar. É difícil, é desafiante. Parece fácil e desinteressante. Requer trabalho e dedicação. Progresso e prazer directamente proporcionais. Como quase tudo o que vale a pena na vida.
Recebi rasgados elogios na última aula de Pilates. Ganhei o dia.

05 março 2008

Estás com muito bom aspecto. Até pareces mais nova. Gosto de ouvir. Aposto que sorrio. Numa escala de 1 a 10?...pergunta-me. Escala? Acho que me falhou qualquer coisa. Sim, de bem estar. 8? Hesito um segundo. Sim, 8.
Voltamo-nos a encontrar antes de eu ir. Quero conversar sobre a escala.

De regresso a casa penso na Meryl Streep em "The hours": I remember one morning getting up at dawn, it was such a sense of possibility, you know? That feeling? And I remember thinking myself, so this is the beginning of happiness and of course there will always be more. It never occurred to me, it wasn’t the beginning. It was happiness. It was the moment, right there.

27 fevereiro 2008

O tempo

Pouco a pouco habituo-me a este ritmo. À cadência dos dias não muito preenchidos. Sou agora capaz de saborear o tempo a passar de outra maneira. Criei uma nova rotina. Usufruo da dádiva do tempo. De tanto esperar, a ansiedade já passou. Agora a espera é serena. Mesmo assim, as horas, os dias, as semanas, passam depressa. Aproveito cada minuto. Nos dias de sol, deixo que ele me preencha os dias. Não tarda nada o ritmo vai mudar e sei que quanto mais aproveitar a cadência de agora, melhor me vai saber a diferença horária.

22 fevereiro 2008

Acho que sou tagarela. Podia não opinar, podia só ouvir, para variar. Ouvia, sorria e guardava tudo para mim. Talvez um ar introspectivo ou distraído, não interessa, desde que com a boca fechada. Na verdade podia até não ter opinião. Seria mais fácil, menos cansativo, mais pacífico.

14 fevereiro 2008

05 fevereiro 2008

Avó Clara

Estava bem disposta neste domingo e com vontade de sair. Ela nem imagina o efeito que isso tem em nós. Acho que ficamos todos mais leves. A minha avó Clara, senhora de um rijos 87 anos, enérgica e com uma grande vontade de viver. Depois do cozinho à portuguesa disse que estava com saudades de fazer anos, "sempre era mais um". Trata muito bem de si e está sempre a pensar nos seus. Desta vez foram bifes para o meu irmão e laranjas para mim. Houve tempos em que os avios eram repletos e variados, qual cabaz de Natal! Tenho cá para mim que o segredo da sua vitalidade é a alimentação cuidada e os rodopios no seu quintal. Este ano, para além das habituais sacadas de laranjas (doces como nenhumas outras) tivemos abóboras plantadas à semente. Dona de uma teimosia genuína, a palavra das vizinhas é sagrada. Não vale a pena argumentar, explicar, insistir. Ninguém a demove. Leva-nos ao desespero e confesso que até já lhe levantei a voz. Nascida e criada na zona saloia, a infância difícil deixou marcas. Não usa o aquecedor porque gasta muita electricidade e recusa-se a deixar pão "estreado" na mesa. Ao fim de muita insistência deixou de guardar dinheiro em casa e é agora senhora de um cartão multibanco!
Neste domingo quis saber para onde era mesmo que eu ia agora. Expliquei que era para o mesmo país, mas só que para mais perto, "o país é tão grande que faz muita diferença e não te preocupes que conheço já lá portugueses e brasileiros". Ficou contente e isso descansa-me. Não tarda nada estou a ligar-lhe lá de longe. Parece que já a estou a ouvir "ai filha que parece mesmo que estás aqui pertinho".

02 fevereiro 2008

A confirmação

Sem estar ainda à espera, chegou a notícia por email. Parece que falta um documeno, mas "Informamos ainda, que o pedido de alteração (...) foi aceite". Assim, quase que como um detalhe sem importância. Sabem lá eles o que isso significa para mim. Simplesmente vai ser uma vida nova, mas isso só sabe mesmo quem tem estado aqui.
Sabem que mais? Chorei. Foram só duas lágrimas, mas garanto que eram diferentes de todas as outras.

01 fevereiro 2008

Azulices

Está-se muito bem no quarto da parede azul. Ainda estive inclinada para o mar, mas não. O tom era mesmo este, frio e triste, não faz mal. Como disse o meu avô "para alegre bastas tu".

27 janeiro 2008

Estreia

Fui para ver e acabei por ficar atrás da cortina. Segurei-a bem e com todo o meu empenho. Depois fiquei muita quieta, no escuro, quase sem respirar, resistindo à tentação de espreitar. Ela acha que eu digo a brincar, mas foi mesmo uma honra participar.

25 janeiro 2008

"Que surpresa este choro de novo, esta evidência que corta tudo por dentro, na sua solidão que julgava conformada, de que já não está, não está mais, não volta, por mais que sorrisse triste uma vingança no julgamento, por mais que o assassino apodreça na prisão. Por mais que, com o passar dos anos, se tenha convencido de que seria capaz de perdoar. Que já passou, que não adianta ruminar o assunto, que tem de continuar a vida. Julgamos, muitas vezes, que a dor já lá não há-de estar, confiantes no grande remédio que nos ensinam cura tudo. O tempo. E contudo há sempre um dia, um acontecimento, uma conversa, uma situação que observamos, ou esse tal objecto insignificante que reencontramos. E a serpente morde-nos outra vez os tendões."

Rodrigo Guedes de Carvalho, in "Canário"

22 janeiro 2008

De mansinho

Acho que vou voltar. De mansinho, como se nada fosse. Digamos que vou acordando da hibernação. Vou desenrolar a coluna, "vértebra por vértebra", sempre a expirar e com o core fortalecido como manda o pilates. A prova está passada, mas há quem diga que só agora começou.

18 agosto 2007

Top 3

Ruas pequeninas escondidas, cafés onde dá vontade de ficar (com chá, bolo de chocolate e um livro) e mercados de frutas e legumes- eis as três coisas que mais procuro em cada nova cidade. Em Estocolmo só me falta ir à caça dos mercados. Amanhã não escapam. Depois sigo satisfeita para a cidade mais pequena, onde me espera uma dose intensa e variada de evolução para todos os gostos.

10 agosto 2007

A voz

Teclar não me chega. Não consigo perceber o tom, o ânimo, o que lhe vai lá dentro. As notícias que vêm do paraíso, lá do outro lado do mundo e no meio do oceano, vêm sem sal. Falta-lhes, sem dúvida, a emoção. Apaziguam-me muito pouco as (já tantas) saudades. Faz-me muita falta ouvir-lhe a voz. O meu reino pela sua voz.

07 agosto 2007

Verão

O cheiro da praia no primeiro dia não deixou dúvidas: estávamos no Algarve, como antigamente. As caras pequenas da família grande são outras. Trocou-se a Meia Praia por Altura, introduziram-se a bicicleta e as bolas de berlim. No essencial, tudo saborosamente igual.

24 julho 2007

Anedota

Parece que o abono de família vai aumentar e que o vão passar a dar às mães a partir dos 3 meses de gravidez. Com estas medidas, eu e as minhas amigas vamos já engravidar.
O que nos importa não termos perspectivas de emprego e termos que nos endividar até à medula para comprar uma casa? E a falta de creches? Também não nos interessa nada não termos opção de manter o posto de trabalho ou optar por um part-time após os 4 meses de licença de parto. E o estado do sistema de educação do nosso país? Coisa sem importância.
Temo que com estas fabulosas medidas para promoção da natalidade Portugal se encha de bebés.

20 julho 2007

Magia e ingenuidade

As Câmara não sabem, mas eu tenho um riso especial que só elas são capazes de provocar. É um riso, à semelhança delas, espontâneo, verdadeiro e que me enche de energia. É o que hoje mais se assemelha aos risos do tempo da juventude. Ontem recordámo-los. Esses risos fazem parte daqueles momentos que um dia pensámos serem, simplesmente, para sempre.

Para procurar o segredo do início, a magia de uma certa ingenuidade e frescura que inevitavelmente se perde com o passar dos anos, a Simone fez um disco. Eu janto com elas de vez em quando.

Ao Príncipe Real

Tagliatelle ao molho de manjericão (e mais qualquer coisa) com camarão tigre. Foi no Jardim das Flores, no novo e promissor projecto do André, o amigo a quem uma vez disse, e é verdade, que tem um mundo, só dele, que é muito bonito.

14 julho 2007

Paul Harris 1, 6A

Fui ao fresco e escuro -3. A nossa vida em Lisboa estava lá, arrumada em sacos e caixotes, parada no tempo. Olhei para o sexto andar- janelas fechadas. À volta não noto grandes mudanças: as lojas são as mesmas, a relva está igual e o betão não avançou muito. Apetecia-me meter a chave à porta, só para me sentar no nosso sofá e olhar pela janela. Queria ver se a mobília está no mesmo sítio e era capaz de espreitar uma ou outra gaveta. É só uma casa, mas foi a nossa durante quase quatro anos e não sei se vai voltar a ser.

11 julho 2007

Travo a despedida

O primeiro dia de volta ao ISPA teve já travo a despedida. Sou calorosamente recebida como alguém que já se mudou (e já me mudei mesmo). Que bons os telefonemas matinais só para saber se já cheguei. A internet que não funciona no meu computador, os meus post-it na parede, o arrastar da impressora. Mais tarde as habituais combinações para o almoço. A descida da escadaria para a cantina, o abraço enquanto pouso o tabuleiro, a conversa do costume ao café (agora com algumas novas esperanças, mas já sem ilusões). De volta ao sotão e à minha secretária continuo a trabalhar nela. De vez em quando espreito, pelo rabo do olho, a minha prateleira e penso no destino do seu conteúdo: uns irão, outros reciclar-se-ão e outros ainda arrecadar-se-ão. Quem se vai sentar na minha cadeira? Quem se vai rir com a Clara e espreitar pela janela aberta para uma das casas de Alfama?

04 julho 2007

Biológico ou filosófico?

"... A vida quer ser; a vida nem sempre quer ser grande coisa; a vida extingue-se de vez em quando (...) A vida continua"

Bill Bryson in "Breve história de quase tudo"

29 junho 2007

Consciência ecológica

A minha consciência ecológica chega a ser cansativa. Pratico arduamente o primeiro R (reduzir). Cada saco de plástico utilizado é ponderado e a decisão de pegar num novo é quase sofrida. Não compro toalhetes húmidos, não gosto de guardanapos de papel, não deixo luzes acesas pela casa, não quero ar condicionado e gosto de andar de transportes públicos.
Em Lisboa tinha um saco de sacos de plástico que levava para a praça. Já era conhecida pela menina que não quer sacos. Isto depois de incontáveis Não os quero acumular em casa ou São muito maus para o ambiente, face às bocas abertas e aos olhares de espanto. Muitas vezes resisti à tentação de um discurso mais longo: a energia monumental necessária para fazer um saco de plástico, o tempo infinito que leva a degradar-se, as consequências desastrosas para os ecossistemas do plástico acumulado...
Aqui, no país das contradições, encontro mais uma. Choca-me o abrangente e rotineiro descartável e agrada-me o Do you need a bag? em todas as lojas.

Nota: o Não faz mal porque se recicla, não é desculpa. Há que Reduzir primeiro que tudo. E, by the way, os sacos de plástico não se reciclam.

23 junho 2007

Rudy


2500 Km: uma carrinha (Rudy), um atrelado, 2 caiaques, 4 pessoas e dois cães.

Baja



A Baja entranha-se-me. O calor, a paisagem, as pessoas, a comida. A transição da paisagem ao longo das milhas. O deserto de planícies a perder de vista, os cactos, as pedras gigantes e o mar. A Baja é misticamente latina e por isso gosto dela. Gosto da simplicidade calorosa dos mexicanos, dos buracos na estrada, dos tacos caseiros e do espanhol da américa do sul.

13 junho 2007

Adeus e até ao meu regresso

A minha sina é esperar. Sempre fui muito cumpridora. De regras, de horários, de prazos. A maioria das vezes sou mesmo adiantada. Espero, portanto.
Em miúda cumpria seriamente as regras: "um gelado (de leite) por dia" e "um sumol no restaurante".
O estudo para os exames da faculdade era bem organizado. Planeava os meus horários de forma a me permitir estudar (leia-se passar a tarde na conversa) no CCB com a Cristina e o João (até hoje eles não sabem, mas o estudo já estava bem adiantado nos dias em que me juntava a eles).
Não me lembro de ter falhado um prazo (minto, já entreguei uma revisão de um artigo após o email de aviso, mas foi logo no dia seguinte).
Tenho uma candidatura a pós-doutoramento pronta desde Março e uma tese escrita faz já 3 semanas. Espero por um concurso e espero por comentários. Espero, portanto.
Desta vez estou mesmo farta de esperar. Vou ao México, portanto.

11 junho 2007

Abraços, da Califórnia

Hoje mandei-lhe abraços virtuais. Um para cada uma e bem apertados. A minha mãe também lhos deu, mas mesmo assim queria estar lá para os dar pessoalmente. Gosto de pensar que talvez as pudesse confortar um bocadinho, como elas já me confortaram tão bem. A vida é mesmo uma pena que paira ao sabor do vento e que, a um sopro mais forte, vai parar não se sabe onde. Parece mesmo que "Para sempre só a música". Tem-me apetecido chorar um bocadinho e também dizer asneiras.

07 junho 2007

Três anos depois

Os nossos primeiros hóspedes são franceses. Damos guarida à colega Céline e ao pai que a veio visitar. A Céline é novinha. Tem vinte e poucos anos e está maravilhada por cá estar. Revejo-me nela. O seu entusiasmo lembra-me o meu na primeira vez que cá estive, a vontade de mostrar as coisas ao pai assemelha-se à minha quando passeei a minha mãe. Agora não estou maravilhada, estou só satisfeita. O entusiasmo contuinua mas não é tão gritante. É mais sereno e menos exuberante, mas nem por isso menos sentido. Talvez seja simplesmente mais amadurecido.

03 junho 2007

Pequenos (grandes) prazeres


- Acordar de uma sesta curta com a sensação de que dormi várias horas

- Acordar a meio da noite sem saber onde estou e perceber que ele está ali ao lado
- Fazer máquinas de roupa e estendendê-la
- Frutos vermelhos, queijo e chocolate
- Ir à praça comprar fruta e legumes
- Ler
- Tomar o pequeno-almoço fora aos fins-de-semana
- O segundo em que deito a cabeça na almofada depois de ter apagado a luz para dormir
- Fazer de poleiro para a Ginja
- Nao ter nada para contar à minha mãe, mas telefonar-lhe à mesma
- Os jantares (geralmente no Gravatas) com o meu pai
- Pensar que sou a irmã do meu irmão
- Ouvir a minha avó ao telefone e notar-lhe no tom de voz que está satisfeita
- Chegar a Ribamar e saber que tenho todo o fim-de-semana pela frente
- Deitar-me na toalha, de barriga para baixo, depois de um mergulho no mar
- Cumprir tarefas (sejam elas quais forem)
- O “Vera” sempre igual da Adriana quando lhe telefono
- Não ter nada para fazer e ir a um café comer um bolo de chocolate com o meu livro do momento
- Escrever no meu blog

30 maio 2007

Cá de dentro

Reivindicativa, contestatária, exigente, sindicalista. Estou já habituada a que me chamem tudo isto, em tom de apreço, de gozo, ou até mesmo depreciativo. Por email, o meu orientador em Lisboa diz que todos têm saudades de mim, até da minha refilice. Posso por vezes ferver em pouca água, mas antes isso do que engolir sapos, tornar-me num ser amorfo e conformado. Faço por fundamentar o que defendo e aproveito sempre que posso para passar a palavra. Acredito convictamente que cabe a todos nós mudar o que nos parece mal. Por isso mesmo contribuo com uma migalha. Um dia espero poder dar mais de mim.

28 maio 2007

Lista em construção

Fui ver 10 questions for the Dalai Lama. Tenho pensado quais seriam as minhas, mas a lista ainda não está completa. Não é tarefa nada fácil. Preciso de ler mais.
Saí pequenina por rever o monstro China, mas maravilhada por mais uma confirmação da grandeza do senhor. O Budismo Tibetano parece-me ser a única religião coerente e compatível com a ciência. É também a única que realmente pratica a
paz e a força da verdade. Um dia ainda me converto.

Nova paragem

O tempo parou outra vez. Desta vez foi uma paragem com mais acústica e em tom latino. Ouvimos a guitarra e o acordeão acompanhados por violinos e violencelos. O regresso a casa fez-se de bicicleta com luzes a piscar. Ficou-nos uma dúvida: pia baptismal ou jacuzzi?

25 maio 2007

No kiss

Hoje conheci a professora da Amália (não a Rodrigues, mas a Bernardi). Quem olha para a senhora não adivinha o que lhe vai na cabeça. Há uma regra a cumprir na sala de aula dos miúdos de 6/7 anos: no kiss. Isso mesmo, é proibido dar beijinhos aos colegas. Eu fiquei verdadeiramente chocada quando soube. O G desabafa this society is really sick. O que pensaria a senhora dos beijos na boca, dos apalpões e das espreitadelas por baixo das saias das meninas de que nós tanto gostávamos?

23 maio 2007

A minha selecção

2005, aqui
2006, outra vez aqui
2007, no sítio do costume

Pró-activo

Ontem em conversa, durante o já habitual café depois do almoço, o G mencionou uma das razões que o levaram a sair de França: a facilidade com que conseguiria um emprego lá devido ao elevado número de familiares na Academia. As coisas não têm que acontecer assim. Uma prova de que o lema não serve para todos.

19 maio 2007

Jardim


O meu primeiro jardim (soa-me a livro faça você mesmo) ou Vera e a jardinagem (soa-me a livro da colecção Anita). Escavei, plantei e reguei: hortelã (para a massada de peixe), alfazema (para o jardim cheirar bem ao pequeno-almoço), lebelia (porque é roxa), linaria (com bee like flowers) e arméria (lembra-me as dunas).

Meme

Desafio aceite. A busca do meu meme tem-me andando a roer por dentro, devagarinho e distraidamente. Nos dias de hoje, em que o dever cívico é um conceito vazio e pouco importante, lembro-me muitas vezes de uma frase que li, já há vários anos, num livro oferecido pela Ana P. com dicas para um ambiente melhor. Acho que se aplica a tudo.

Nunca ninguém cometeu maior erro do que não fazer nada, por achar que podia fazer apenas muito pouco.

Não me lembro da autoria, mas sei que a tenho anotada num caderdinho, algures em casa da minha mãe. Ainda hei-de ir à procura.

18 maio 2007

A Essência

Comecei a lê-lo sem muito entusiasmo acreditando que ia ser apenas mais uma historieta à laia de romance. Não me enganei na parte da historieta, mas sim na parte do "apenas". Surpreendi-me com a forma limpa com que ele explica a Física essencial, aquela que nos situa neste Universo. Anos sucessivos de Física na escola e uma cadeira semestral (miserável) na Faculdade não me transmitiram ideias tão claras. Conseguiu ser mais claro que os livros do Hawking. Tudo é de facto muito complexo, mas também muito simples quando visto numa perspectiva integrada. Reconheço-me uma clara falta de apetência para a Física. Sempre me fascinou mais a Química, por exemplo, talvez por a conseguir entender com mais facilidade. É verdade que o nosso sistema de ensino não prima pela articulação e integração dos conhecimentos, mas também acho que há coisas que só se compreendem, mesmo aquele compreender, quando se tem uma certa maturidade. Outras talvez nunca... Como conceber que o Big Bang é o início de tudo e que não existe antes do Big Bang? Como definir o tempo? Conseguirei imaginar metade de metade de metade de metade de metade de metade de metade...?
Se quiserem chamar Deus a todo este mistério explicável, mas no fundo incompreensivel, eu não me importo.

15 maio 2007

Nem a propósito...

O meu pai enviou-me um link.
"O sistema de saúde norte-americano é o mais caro e o menos eficaz entre os de seis grandes países industrializados analisados por um estudo publicado hoje pelo Commonwealth Fund, um instituto independente"
"Os Estados Unidos são a única nação do estudo que não assegura o acesso universal à saúde (...). Karen Davis (presidente do Commonwealth Fund).
Cerca de 15% da população não tem seguro de saúde!
Sem surpresa, os médicos americanos acham que o seu sistema de saúde é o melhor do mundo.

14 maio 2007

Paradoxo

Recebi o meu cartão da Segurança Social americana. Para que servirá neste país?

13 maio 2007

Fair trade

Tenho estado atenta aos projectos fair trade de que ouço falar. A minha estreia foi o ano passado perto de Vancouver quando comprei um cesto. À primeira vista pareceu-me que fosse de uma das aldeias índias do Canadá, mas depois percebi que tinha vindo de África. Porque o fair trade não sobrevive sem a globalização trouxe-o à mesma. Hoje li no Metro Santa Cruz uma pequena reportagem sobre fair trade de café produzido e transformado na Costa Rica. " You have on one hand people buying coffee for $4 for a latte and people on the other hand barely making a living". Embora ajudar a mudar?

11 maio 2007

Já vai tarde

O Tony vai-se embora. Parece-me estranho este sistema inglês. Então o senhor decide que deixa de ser Primeiro-Ministro lá para fins de Junho e é assim? Não há um mandato a cumprir? Um motivo determinante a invocar?
Esteve dez anos à frente do Reino Unido e o mundo sabe no que resultou a sua liderança. Desde o Afeganistão ao Iraque, o senhor assentiu todas as guerras. Ouvia hoje de manhã na rádio que o Bush vai sentir muito a sua falta, porque não há líder europeu mais fiel e amigo dos EUA. Pior que um criminoso com poder só mesmo um outro que bajula o mais poderoso.

07 maio 2007

Mercado paralelo

Como por aqui se muda de cidade com frequência, pode-se vender e comprar de tudo (literalmente) em segunda mão. Além de ser bem mais barato sabe bem entrar no mercado paralelo. A Craigslist é uma grande ajuda. Eu estreei-me com uma bicla. O plano é pedala-la todos os dias para o lab.

Casa

Mudámo-nos no sábado e já me sinto em casa. Tomamos o pequeno almoço a ver os patos a nadar no lago e a olhar para o chorão grande mesmo ali ao lado. Vou fazer crescer umas plantitas entre os dois arbustos e salsa e coentros debaixo deles. Também vamos fazer churrascos. Descalçamo-nos à entrada porque temos alcatifa quase branca. Temos mobílias (poucas) democratic design (cá para mim o nome não tem nada a ver com o conceito: qualquer coisa do tipo peças baratas, práticas e giras). Temos um futon para as visitas.

03 maio 2007

Grunion run

A lua estava bem redonda, o mar à temperatura certa e nós à espera deles. Foi uma corrida divertida. De Março a Abril, nas noites de lua cheia, os areais do sul da Califórnia (e também de Monterey) enchem-se de grunions que vão desovar. Vêm cheios de força, trazidos por uma onda. As fêmeas enterram-se e depositam os ovos na areia. Os machos aproximam-se, libertam o esperma e num ápice voltam ao mar. Nós esperamos em silêncio encostados ao paredão, corremos e gritamos quando uma boa onda os traz para o areal.

01 maio 2007

Kuumbwa

Entrámos de dia. As mãos dele encheram a sala, pequena e com clarabóia. Saímos de noite. Nestes dias de mudanças soube bem parar no tempo.

26 abril 2007

Eating out

Gosto do copo de água com limão sempre cheio em todos os restaurantes e que me perguntem muito naturalmente se quero levar para casa o que não me coube na barriga. Gosto médio que me tragam a conta sempre sem eu a pedir (e muitas vezes quando ainda estou a comer). Não gosto nada que a tip constitua o grosso do salário dos empregados.

25 abril 2007

Um + na caderneta

Após os 2 emails com subject URGENTE a Maria veio a correr à minha procura. Fiz asneira...Não sei como, a impressora plotter (daquelas que imprimem em papel grande com formato de cartaz) passou o fim-de-semana a imprimir um mapa meu. Abri a porta da sala, o chão estava coberto de Atlânticos e Mediterrâneos, com os nomes das ilhas bem assinalados. Fui ao gabinete do chefe, com as bochechas as arder, pedi desculpa e expliquei que não fazia ideia de como tinha acontecido. Esperei uma resposta torta e talvez um ralhete, mas recebi sorrisos e um "don't worry, it happens sometimes". Embora sabendo que é um erro generalizar, hoje gosto da atitude americana. Vou assinalar um +!

Golden Gate


Dois dias antes do dia que dá nome à nossa ponte houve pescaria e churrasco muito perto da sósia californiana.

A Tese (com maiúscula)

Começa a ganhar forma. O plano está traçado e acabei hoje um dos capítulos da Introdução. Por agora estou entusiasmada com a escrita (vamos ver quanto tempo dura). O "parto" está marcado para Julho.

21 abril 2007

Começo

Apesar de os sonos ainda estarem trocados as coisas vão-se compondo. Temos casa escolhida e conta no banco. O Ric tem gabinete com ocean view. Hoje fazemos uma lista de mobílias e tralhas a comprar.
Tudo aqui parece fluir: desde as conversas com o gerente de conta no banco que é biólogo e treina uma equipa de voleibol onde joga uma portuguesa, até às visitas guiadas às nossas potencias casas com meninas de conversa bem treinada e que não sabem andar de saltos. O tempo vai fluindo também.

14 abril 2007

De cá e de lá

A questão da imigração saltou para a ribalta em Portugal a propósito do cartaz dos fascistas e da soberba resposta dos Gatos. Gostei do humor, mas principalmente de tal ter constituído um exercício de cidadania como notou o José Luís Peixoto.

Não tenho muito a dizer acerca das questões da imigração. Continuo a achar que cada um nasce no país em que nasce por acaso e custa-me que o meu vizinho do lado tenha direitos diferentes dos meus só por não ter nascido no mesmo ponto geográfico que eu. Também me incomoda ter que tratar de papelada com mais de três meses de antecedência para poder entrar num país e de ser interrogada acerca dos meus objectivos de vida (e de tudo o mais que lhes apetecer) para poder ter uma folha no meu passaporte que não me faça violar a lei pelo simples facto de permanecer nesse país.

Tenho-me lembrado muitas vezes de uma frase de Sócrates que lia todos os dias nos azulejos da estação do metro quando ia para a Faculdade : "Não sou nem ateniense nem grego, mas sim um cidadão do mundo."

10 abril 2007

Viagem (breve) ao passado

Encontramos-nos no cinema e depois do filme cada um vai para sua casa. Por uma semana e picos voltamos a ser namorados. Em breve retomaremos a vida a dois. As águas vão ser outras: trocamos o Atlântico pelo Pacífico.

05 abril 2007

É sempre bom saber

Segui para o café mais próximo, para galão e torrada, onde fiquei a saber que 59% das pessoas acreditam em amor à primeira vista (obrigada Nicola). Será que os inquiridos poderiam pôr a cruzinha no Não sei/Não respondo?

Da veia

Hoje em jejum, enquanto o sangue saía de mansinho da minha veia, a simpática e curiosa enfermeira comentou "então tem uma vida de estudo, e quando vai para fora fazer o seu doutoramento não trabalha". Tive que explicar: "Trabalho sim, o meu trabalho é investigar, não sou estudante". Seguiu-se um chorrilho de explicações num discurso automático de tantas vezes proferido por mim em particular e também por todos nós.

Já me tinha(m) identificado veia de contestatária (Mafalda, já somos duas), mas desta vez saiu-me literalmente da dita.

04 abril 2007

22 anos depois

Os duendes sabem muito porque estão muito atentos à vida.
Vera, 6 anos, num Jornal da Torre recordado ontem, com alguns dos da infância, passados mais de 20 anos.

Para quem não sabe importa referir que os duendes vão para o topo do monte esperar serenamente a morte quando se sentem velhinhos.

30 março 2007

Alívio

Casa alugada, viagens compradas, passaportes e documentos para os vistos prontos, tudo guardado no mesmo envelope. Durante duas horas da tarde de hoje fui de Porto Salvo à Quinta dos Barros e de lá para o Jardim do Tabaco. Tudo atrás do dito envelope de cujo conteúdo depende a nossa mudança breve para a beira do Pacífico. Por duas horas pensei que o tinha perdido e imaginei como dar-lhe a notícia. Voltada à casa de partida, o dito e o seu conteúdo precioso descansavam, "para não apanhar pó", no local mais remoto da casa.

Só queria um

Se eu tropeçasse numa lâmpada mágica e me fosse concedido um desejo, só um, nem precisava que fossem três, sei bem o que pedia: ser menos emotiva (leia-se chorona). Facilitar-me-ia muito a vida.
Segundo defende fervorosamente o Sr. Dawkins a probabilidade de um lâmpada destas existir é praticamente zero (quanto mais a de eu tropeçar nela). Parece que vai mesmo depender só de mim.

26 março 2007

23 março 2007

...

Ainda sobre o post anterior e para a minha mãe: ou é genético ou contagioso...

Talvez 1 cm...

Parece-me que ontem cresci um bocadinho. Consegui dormir bem e só rever mentalmente o email a mandar assim que acordei (em vez de o fazer durante a noite como de costume). A prova final foi a de ter apagado o parágrafo em que desaprovava a sua atitude- Who cares?
No entanto,
continuo a achar que não me apetece lidar com estas coisas porque elas (ainda) me desgastam muito.
"Aceitar que há outras opiniões, mesmo que disparatadas, faz parte". Parece que é mesmo assim, mas para quem tem fichas de avaliação,
desde a primária, onde consta espírito de líder e feitio um pouco conflituoso, não é fácil.

20 março 2007

Dizem que a idade não perdoa

Medes: Barbatanei, barbatanei, barbatanei. Barcelona: andei, andei, andei. "Estou que nem posso!"

16 março 2007

E dá mesmo

Ontem no Mercat ouvimos contar que veio da Colômbia para França por amor, que casou muito cedo e era feliz. Ela foi-se embora, encontrou outra pessoa. Não soube o que dizer e resisti à tentação do cliché "a vida dá muitas voltas..." Esta história fez-me lembrar um jantar recente a três em que, em resposta a um lamento por temer ser a única a ficar sózinha, respondi "não digas disparates, sabes lá o que nos vai acontecer..." Talvez dessa vez tenha mesmo rematado com o cliché.

Dilemas de profissão

Tenho consciência de que como referee sou muito exigente. Também acho que sou justa e cuidadosa nas revisões que faço (na maioria das vezes a coisa toma-me um dia inteiro de trabalho). Contenta-me saber que não sou mais exigente com o trabalho dos outros do que face ao meu próprio. Mesmo assim, uma decisão negativa leva-me muito tempo a tomar e é muito ponderada e questionada. Tento convercer-me a mim própria várias vezes, imagino como será ler o que escrevo e troco palavras por sinónimos mais soft. No fim, revisão feita, posição tomada, e...venha outra!

14 março 2007

Onde é que eu já ouvi isto?

Quase diria que o nosso Presidente anda a plagiar a ABIC.

"É hoje ponto assente que a principal riqueza de um País ou de uma instituição, seja empresa ou serviço público, são as pessoas que nelas vivem e trabalham".
Cavaco Silva, Sessão 75º Aniversário da UTL, 02.06.06


13 março 2007

Saudades

Estive no lab a ajudar o Ricardo. De repente lembrei-me que já faz quase um ano desde que fiz o meu último PCR. Estou farta de ser escritora, quero voltar ao lab com urgência.
Dentro da variedade do meu trabalho (campo, lab e escritório), ainda o consigo achar monótono...

12 março 2007

08 março 2007

Eu assinei

Assinei a petição. Quando me chegou a mensagem à caixa do correio pensei que talvez não fosse para tanto. Afinal, História é História e, motivo de orgulho ou de vergonha, não deve ser esquecida. Depois de ler os textos da petição percebi que a ideia é bem outra e muito mais perigosa.

"o espólio documental dos 48 anos de fascismo em Portugal pode e deve estar disponível no Arquivo Nacional, mas jamais deve ser utilizado de forma a constituir-se como instrumento de propaganda do fascismo e dos seus responsáveis".

Mesmo tendo nascido já muito depois do fascismo em Portugal, tenho a liberdade de expressão como um dos valores mais importantes de uma sociedade. Não sei como é possível viver sem ela. Acho que eu teria sérios problemas.

05 março 2007


De França a Espanha sempre ao lado do Mediterrâneo.

Sábado: muita história com mistura de tempos e estilos em Carcassonne.

02 março 2007

Já cá estou

Depois de uma semana a empacotar a casa, passei as 2 fronteira, uma de avião e outra de carro (Ric, tiveste saudades minhas?). Já estou nas terras de França. Hoje trabalhamos, amanhã passeamos e Domingo mergulhamos. Parece-me bem!